13 novembro 2025

Oceano

O Oceano me atravessa em sensações e devaneios. Substância onde flutuo desde o útero ao cosmos e onde cada vibração ressoa em meu ser. Ele é a força primordial que impulsiona a vida dentro e fora de mim. É o mistério profundo nas águas do inconsciente e como um barco a navegar, me movimenta com suas marés, guiando minhas vontades.

É no Oceano onde me encontro e me despeço. Onde percebo a interconexão afetiva entre todas as coisas. Através Dele me lembro que sou pedaço de um todo em imensa simbiose. Eu não só estou no Oceano, como eu sou o Oceano. Do Oceano vim e a Ele retornarei.

07 novembro 2022

Eclipse

Lua...

filha da deusa mãe Gaia

lhe deu à luz na concepção estrondosa dum cometa

e da Terra brotaram as Águas

e das Águas escorreu o Sangue

e do Sangue nasceu o Amor


tua natureza cíclica me ensina sobre morte e vida

tua luz espelha o Sol da minha alma

teu poder move as marés do meu interior

com audácia de estrela cadente 

ouso conhecer a escuridão que escondes detrás de si mesma

e no teu brilho vislumbro o sentido


eclipse: momento onde me alinho e me assombro em ti

mergulho profundo, me fundo ao teu mistério, noite

me perco, não sei mais o quê sou nem quem és

dissolvo em unidade com tua grandeza

flutuo na leveza da tua beleza

me entrego à paz de ser você


eu, tu, nós

desatando os nós volto a rodar em minha própria órbita

na solidão da incompletude, não sou, choro, minguo

mero marinheiro, coração d'água se derrama, lágrima

gotas de saudade e esperança de renascermos, cresço

para em novo ciclo dançarmos o desejo do outro, cheios


com a força desta oração, clamo

a dádiva de lhe conhecer inteira, Lua

de contigo girar num abraço cósmico

de em ti gerar a benção sagrada da vida

de me banhar nas águas claras do Amor

sentimento mais puro, que você me alumiou

08 setembro 2020

perséfone

ela, apaixonada pela morte.
a ponto de adorá-la!
eu, amante da vida!
a ponto de matá-la.

24 setembro 2013

cães e grilos

estou numa rua escura sem asfalto
só ouço latidos estrilas estalos
terra reflete vermelho em nuvens continuas
no céu escuro estrelas lúgubres apagam-se
daqui não vejo sol nem lua

há um coqueiro no fim da rua
me tento à visão daquela altura
horizonte universo estendido ampliado
montanhas falésias rios mares
mas a tentativa de subi-lo é vã

resta me conter ao seu leito
abrir o coco acender o cigarro
estender a canga e aceitar

não estar no lugar de ser
estar no lugar que se está
na companhia de cães e grilos

29 agosto 2013

desfoque

passei a enxergar em desfoque
cansei-me de como o ser humano se posta
abri as janelas à outra proposta
distanciei-me da realidade imposta
antes só via anúncios
compra-se vende-se
aluga-se finge-se
promoção do insensível
padronização de sentidos
propaganda do abuso
incompreensão assistida
sentimento em larga escala
disseram que minha visão piorara
que teria de usar óculos
que simplificara
sim simplificara mas pra quê óculos
enxergo beleza em simplicidade
enxergo ternura no vivenciado
enxergo emoção em natureza
enxergo detalhe no momento
vivo vendo o que vejo em terra vivendo
visibilidade diferenciada
percepção contemplada
imperceptível aos olhos de outrora
afinal, preciso eu de óculos
ou o resto se perdera de foco?

27 agosto 2013

novo quarto

sótão

poeira

calor

é apenas questão de tempo pro tempo passar

a fumaça me rasga a garganta e invade os pulmões

mistura seca de cinzas com angústia e vento

o choro surpreende o mesmo que achou-se um dia insensível

ingênuo, pus tudo a perder vendo a vida escorrer entre os dedos

sozinho de alma vazia caminho perdido

deserto onde o único refúgio é o oásis imaginário

ilusão

miragem

nada

duo

olhares cortam cruzam furtam sentimentos peculiares faíscam curiosidades tímido interesse faz singelo riso rega flor peito esquerdo direito norte sul mão nuca pé cabelo orelha desabrocha sussuro vozes pétalas lábios molhá-los mordê-los senti-los pele perna bunda barriga umbigo nariz pescoço mamilo amadurece mel nutri fogo intenso ventre tenso unindo-se unidade ser dividindo-se sentidos indivisíveis sentindo-se completas metades de si mesmos

sensação

o dia me sente sensível
sensibilidade que aflora na pele pálida
sentidos captam cada quimera de som e letra
tudo me toca tudo me sente
em tudo me sinto toco-me em tudo
tato arrepia cada toque
cada cor cada cheiro me adentra
não háfora tudo hádentro

24 agosto 2013

ella

por você eu venho, me deixo
me falta desfecho, desleixo
não sei o que faço, me mexo? remexo?
meu desejo é pousar em teu beijo
tua pele, teus olhos, teu queixo
e repousar, encolhido no teu peito

22 agosto 2013

manhã otimista

é aqui, sentando na grama seca
o sol matinal se abrindo
cantos de passáros indo, vindo
copas, vento, folhas caindo
aqui, só vendo o movimento passar

é aqui, caneta e papel
sentimento presente
pensamento distante
concepção diferente
aqui, paro, fecho os olhos, penso

mas que linda a natureza
essa vida é mesmo uma beleza
tão breve pra tanta tristeza